• De cabeleireiro a domador de búfalo: a trajetória de Deiveson Figueiredo rumo ao título do UFC

·         Paraense, que também trabalhou como sushiman, terá a chance de disputar o cinturão dos moscas, sábado, contra o experiente Joseph Benavidez, no combate principal do UFC Norfolk

  • Por Fábio Juppa e Marcelo Barone — Belém

Em um salão de beleza da cidade de Ananindeua, a cerca de 40 minutos de Belém do Pará, Deiveson Figueiredo mexe no cabelo de uma das funcionárias, sentada na cadeira diante do espelho. Estica, enrola, alisa, grampeia, relembrando com desenvoltura a época de assistente de cabeleireiro. A habilidade manual, também exibida na função de sushiman – seu primeiro emprego após deixar o município de Soure, na Ilha de Marajó, com 22 anos de idade – contrasta com a potência de seus punhos, capaz de nocautear adversários no UFC e, outrora, de amansar búfalos e cavalos marajoaras.

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  • Deiveson Figueiredo fala sobre luta na vida para chegar à disputa do cinturão peso-mosca do UFC
  • A relação de Deiveson Figueiredo com o salão de beleza começou de uma forma e terminou em outra. Explica-se: foi contratado para fazer a segurança do local, porém, após pedido à chefia, ganhou uma oportunidade na parte interna. É por isso que, mesmo que a academia seja seu habitat, ele se sente à vontade diante de escovas, maquiagens e chapinhas.
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  • Deiveson Figueiredo mata as saudades do salão de beleza — Foto: Marcelo Barone
  • – Eu era um segurança magrinho, baixinho, brabo para caramba… Mas eu sentia que segurança não era para mim. Queria trabalhar como cabeleireiro, tomei a liberdade e falei: “Me dá uma chance, me ensina. Você não vai se arrepender, vou aprender, você vai ver”. E fiquei um ano e oito meses trabalhando assim. Eu fazia maquiagem, química de cabelo, fazia de tudo, “brother”. Era chapinha, secagem. Havia muitas noivas no salão na época. Tínhamos hora para entrar, mas não para sair – contou o “Deus da Guerra”, apelidado por ser fã do personagem Kratos, do game “God of War”, ao Combate.com.
  • O trabalho meticuloso como cabeleireiro era bem diferente da infância duríssima de Deiveson Figueiredo, ao lado dos três irmãos nas fazendas da Ilha de Marajó – área que abriga o maior rebanho de búfalos do país. O franzino sourense aprendeu a amansar os animais em suas incursões pela mata com o pai.
  • – O que sei de fazenda foi meu pai que me ensinou. Quando as férias chegavam, meu pai não deixava a gente ficar na cidade, queria ver os meus irmãos e eu trabalhando. A gente passava o mês todo na fazenda, “mermão”. Ele nos acordava às 2h, com aquela carne de sol frita, aquela coalhada, e falava: “É bom se alimentar, porque voltaremos tarde para casa”. A gente chegava debaixo de um sol danado. Búfalo era “de lei” chegar na fazenda, de cinco a sete animais, para amansarmos. Eu era o mais medroso dos irmãos, mas como meu pai era casca-grossa, eu tinha que ir amansar os búfalos. Eu colocava os animais nas cordas de três a quatro dias para ficar macio e poder montar – contou Daíco, como é conhecido por amigos próximos e familiares.
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  • Deiveson Figueiredo perdeu o medo de mexer com os búfalos na infância — Foto: Arquivo Pessoal
  • A luta marajoara, praticada pela família nas praias de água doce de Soure e passada de geração para geração, foi o primeiro contato de Deiveson Figueiredo com uma atividade de combate. Antes disso, havia experimentado apenas brigas de rua na época de escola, para a preocupação de sua mãe, Silvana Alcântara.
  • – Dei muito trabalho para a minha mãe, sabe (choro)? Eu vivia brigando, cara. Não respeitava a minha mãe. Eu me lembro de passar dois anos sem falar com o meu avô por causa de briga. Hoje, sou totalmente diferente, tudo mudou.
  • Quando decidiu canalizar a força física, a determinação e a vontade de vencer no esporte, Deiveson Figueiredo precisou de um espelho. E a fonte de inspiração do paraense foi José Aldo – o manauara que atropelava adversários na condição de campeão dos penas do UFC.
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  • Deiveson Figueiredo posa com a mãe, Silvana Alcântara — Foto: Arquivo Pessoal
  • – O José Aldo estava arrebentando no UFC, nocauteando todo mundo. Rolava luta na esquina, e eu olhava: “Caraca! Estou trabalhando, mas está rolando um UFC”. Era aquela paixão, sabe? Queimava no peito. Eu, então, pensei: “Cara, isso não é para mim. Eu amo trabalhar com cabelo, mas tem a luta dentro de mim, é algo mais forte”.
  • Depois de passar pelas mãos dos irmãos Iuri e Ildemar Marajó e de Michel Trator, todos nomes conhecidos no MMA, Deiveson Figueredo despertou a atenção ao conquistar, em 2016, o cinturão do Jungle Fight. Em 2017, estreou no Ultimate abrindo o UFC Rio com vitória sobre Marco Beltran, por nocaute técnico, no mesmo card em que José Aldo perdeu para Max Holloway no combate principal. Quase três anos depois, disputará o cinturão dos moscas com o retrospecto de seis triunfos e um revés na companhia. Desde que o compatriota foi destronando, nenhum homem conquistou mais o título do Ultimate.
  • – Estou 100% pronto, não vejo a hora de estar dentro do octógono. Quero olhar para o Benavidez e falar: “É você e eu, meu irmão. Vamos conversar, é hora de brincar, de dar show para a galera”. É isso que sei fazer. Estou mil vezes preparado, venho treinando para neutralizar o jogo dele. Vou caçar o Benavidez, fazer com que ele ande para trás. Se ele me botar para baixo, vou usar a minha luta marajoara e o meu jiu-jítsu.
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  • Criançada tieta Deiveson Figueiredo na reta final de preparação do atleta para o UFC Norfolk — Foto: Marcelo Barone
  • A um passo de concretizar o sonho de conquistar o título do UFC, Deiveson Figueiredo sonha chegar a Soure com o cinturão para mostrar o município ao mundo, inspirar os mais jovens e orgulhar seus familiares, que ainda vivem na mesma humilde casa onde passou a infância.
  • – O cinturão vai mudar a minha vida, principalmente a situação financeira. Vou poder ajudar a minha família, algo que eu almejo muito forte. Quero construir algo legal na minha cidade. O título vai me dar um conhecimento muito grande dentro e fora do meu país. Fico muito feliz de ser uma referência para a molecada, para a minha cidade e dar essa felicidade a eles com as minhas vitórias. Quero continuar fazendo isso por muito tempo. Esse cinturão vai ser o maior presente que eu vou poder dar para a cidade, para os brasileiros e a todos que acompanham o meu trabalho. Chego a sonhar acordado. Eu me vejo chegando com o cinturão, erguendo e falando: “É nosso!”. Imagina a festa em Soure!
Deiveson e o irmão, Francisco Figueiredo, atual campeão do Jungle Fight — Foto: Arquivo Pessoal
  • Deiveson e o irmão, Francisco Figueiredo, atual campeão do Jungle Fight — Foto: Arquivo Pessoal
  • UFC Norfolk
    29 de fevereiro de 2020, na Virginia (EUA)
    CARD PRINCIPAL (22h, horário de Brasília):
    Peso-mosca: Joseph Benavidez x Deiveson Figueiredo
    Peso-pena: Felicia Spencer x Zarah Fairn dos Santos
    Peso-pena: Megan Anderson x Norma Dumont
    Peso-médio: Brendan Allen x Tom Breese
    Peso-galo: Gabriel Silva x Kyler Phillips
    CARD PRELIMINAR (19h, horário de Brasília):
    Peso-meio-pesado: Ion Cutelaba x Magomed Ankalaev
    Peso-pesado: Marcin Tybura x Serghei Spivac
    Peso-pena: Mike Davis x Giga Chikadze
    Peso-pena: Aalon Cruz x Spike Carlyle
    Peso-pena: Jordan Griffin x TJ Brown
    Peso-meio-médio: Sean Brady x Ismail Naurdiev
    Peso-leve: Luis Peña x Alex Muñoz
    Peso-pena: Grant Dawson x Darrick Minner

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