Investigação criminal do MPPA sobre morte de advogada no HMS está em fase final

Por Sílvia Vieira, G1 Santarém — PA

morte que vem rendendo polêmicas

Paula Janyne Campos morreu dia 19 de abril de 2019, no HMS — Foto: Reprodução/Redes sociais

A documentação resultante da sindicância que apurou as condições do atendimento à advogada Paula Janyne Campos da Silva, que morreu no Hospital Municipal Dr. Alberto Tolentino Sotelo em abril de 2019, está em fase final de análise na 3ª Promotoria de Justiça de Santarém, oeste do Pará.

As cópias dos depoimentos, prontuário, declaração de óbito e demais documentos coletados durante as investigações foram encaminhados ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) para as devidas providências.

De acordo com a 3ª Promotoria de Justiça de Santarém, assim que a análise do caso for concluída, por meio de Procedimento Investigatório Criminal, serão informados os próximos passos.

A expectativa de familiares e amigos de Paula Janyne, e da Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil, é de que os responsáveis pela sucessão de erros apontados na sindicância sejam denunciados e punidos na forma da lei.

G1 teve acesso ao relatório final da sindicância realizada por comissão composta pelo médico Gilvandro Uriracy Valente, enfermeira Maria Albanice Leal Dias, médico Itamar Soares de Carvalho Júnior – diretor do Hospital Municipal, médico Luís Rodolfo Dinelli Carneiro Filho – diretor clínico da OS IPG, e pelo advogado Fábio Argento Camargo Filho, representante da OAB. Dos cinco, apenas os médicos Itamar Filho e Luís Rodolfo não assinaram o relatório final da sindicância.

A sindicância apontou indícios de omissão de socorro, negligência, imperícia, imprudência e infringência aos dispositivos legais, éticos e administrativos, em atividades meio e fins. Até mesmo no preenchimento da Declaração de Óbito de Paula Janyne a comissão encontrou falhas. O documento com diagnóstico de choque séptico (falência circulatória aguda de causa infecciosa) por prenhez ectópica não faz referência ao choque hipovolêmico (choque hemorrágico).

Falhas identificadas

A comissão de sindicância apurou que houve demora na solicitação e administração de hemoderivados para repor o sangue perdido pela paciente (estabilização volêmica) em razão de gravidez ectópica, que se desenvolve na trompa. Paula Janyne teria ficado por mais de 8 horas sem receber hemácias e plasma, o que agravou o seu quadro clínico.

De acordo com o relatório da sindicância, também houve demora no procedimento cirúrgico, que deveria ser emergencial e imediato, permanecendo a paciente por 7 horas com quadro clínico de choque hemorrágico grave, por falta de anestesista no plantão do Hospital Municipal Dr. Alberto Tolentino Sotelo, embora houvesse médico cirurgião obstetra de plantão na obstetrícia da unidade.

Paula Janyne ficou aos cuidados da enfermagem e dos acompanhantes (namorado e uma amiga), sem médico presencial, sem produtos de estabilização clínica, sem equipamentos de monitorização adequada, inclusive desfibrilador.

Quando a advogada teve parada cardiorrespiratória, foi seu namorado, estudante de medicina, quem fez as manobras de reanimação, conforme relatos de testemunhas.

A sindicância também relatou reiterada falta de medicamentos, insumos e equipamentos essenciais no setor de obstetrícia, para atendimentos emergenciais ou de pacientes críticos, tais como: monitor multiparâmetro, carrinho de parada, cardiotacografo e desfibrilador.

Na paciente, segundo o relatório, foram utilizados equipamentos de ventilação mecânica com defeito na UTI Adulto e uso de BiPAP (um aparelho compressor de ar) na sala de estabilização, o que agravou o quadro de acidose metabólica (excesso de acidez no sangue) e hipóxia (diminuição das taxas de oxigênio) levando a paciente à morte, o que foi confirmado por médicos intensivistas e emergencistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas ouvidos pela comissão de sindicância.

Nota do HMS

Questionado sobre o caso, o Hospital Municipal Dr. Alberto Tolentino Sotelo enviou a nota abaixo:

“A direção do Hospital Municipal de Santarém Dr. Alberto Tolentino Sotelo (HMS) esclarece que foi realizada uma sindicância interna sobre o atendimento prestado à paciente Paula Janyne Campos. Porém, este é um documento sigiloso e que já foi enviado às instituições cabíveis. O HMS dá total atenção ao caso como se é de direito e, por isso, aguardamos o resultado da investigação oficial.

É importante dizer que os profissionais envolvidos foram advertidos enquanto se aguarda o resultado. O Hospital disponibilizou e disponibiliza todas as ferramentas necessárias para um atendimento adequado dentro do porte de pequena e média complexidade. Reinteramos que o HMS é uma instituição fundamental pra a saúde de Santarém e região, atende por mês cerca de 8.500 pacientes, número que está acima da sua capacidade.

A direção da Unidade se coloca a disposição para qualquer dúvida que possa surgir e presta solidariedade aos familiares da paciente Paula Janyne Campos.”

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